Doze mil pessoas morrem por ano em acidentes com moto no Brasil

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“Então, cara, é meio complicado porque é assim: motoboy, se você fala de acidente”. O motoboy Wellington Danilo, de 35 anos, foi interrompido pelo aplicativo de entrega. E é assim o dia inteiro.

Para garantir a renda no fim do mês, quanto mais corrida, melhor. Logo, os entregadores precisam realmente correr, como conta o Deivid Henrique Teixeira, de 30 anos:

“Ele dá pouco tempo pra gente chegar nos lugares. Eles bloqueiam por meia hora quando você não consegue chegar a tempo no restaurante. Só que, um exemplo: para chegar lá no Shopping Ibirapuera daqui, em torno de uns sete, oito quilômetros. Eles dão seis minutos, dez minutos, às vezes. Com o tanto de farol que tem daqui pra lá, não tem como a gente chegar em dez minutos.”

Especialistas ouvidos pela CBN apontam a explosão do serviço de entrega por aplicativo, nos últimos anos, como um dos motivos para o aumento de acidentes. Tanto que no ano passado, a prefeitura de São Paulo chegou a firmar um acordo com duas empresas que se comprometeram a parar de remunerar os profissionais pelo cumprimento de metas dentro de um determinado período. Segundo a administração, essa medida influenciou na queda de 13% no número de mortes nos dez primeiros meses do ano passado na comparação com o mesmo período de 2018. Naquele ano, as mortes em acidentes com moto tinham superado as de pedestres pela primeira vez, na capital paulista.

No Brasil, enquanto as mortes no trânsito caíram 17% desde 2010, as mortes em acidentes envolvendo motocicletas cresceram 12% no mesmo período. São cerca de 12 mil vidas a menos todos os anos.

Impacto também na economia: a quantidade de benefícios pagos pelo seguro DPVAT a vítimas de acidentes com moto subiu 10% entre 2018 e 2019. Mais do que a frota, que cresceu 4%. Essas ocorrências representam quase 60% das internações por acidentes de trânsito, gerando um custo de R$ 151 milhões para o SUS.

O diretor de análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis do Ministério da Saúde, Eduardo Macário, ressalta que o impacto econômico é ainda maior:

“Não são contabilizados os gastos com reabilitação, com o número de dias que essa pessoa, que normalmente é um trabalhador, deixa de produzir, deixa de fornecer renda pra sua família e para ele próprio, e acaba sendo absorvido pelos sistemas de previdência social, gerando grande número de custos intangíveis para todo o Brasil.”

Para o médico Marcelo Rosa de Rezende, microcirurgião do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, o país vive uma epidemia. Ele coordenou uma pesquisa que avaliou acidentes com moto em 2013 e diz que pouca coisa mudou desde então. O especialista afirma que é preciso aumentar o rigor na preparação dos motociclistas, além de rever as regras para circulação de motos nos corredores, entre os carros:

“É uma epidemia e eu diria mais: é uma epidemia crônica. Setenta por cento das vítimas não frequentaram autoescola, ou seja, simplesmente fizeram a prova, passaram, uma prova extremamente questionável, e começaram a dirigir moto. Se eu fosse priorizar, em termos do que seria que ser regulamentado, é exatamente a área de trânsito no corredor. Isso nunca ninguém definiu, não tem regra nenhuma. Se vai ser usado, como vai ser usado o corredor?”

Uma das formas de evitar o risco de acidentes nos corredores é andar com velocidade reduzida. Um projeto de lei na Câmara dos Deputados propõe a proibição da circulação de motos quando os carros estão em movimento, mas não há previsão de votação.

Em nota, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) informou que não há intenção de aumentar a rigidez na obtenção da habilitação de motociclistas.

Fonte: Leandro Gouveia – CBN

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